O status de minha irmã Rivane denucianava: ela orgulhosamente exibia um saboroso caldo da caridade feito por mamãe, foi quando lembrei que lá em Capitão de Campos, no tempo em que a internet era só um passarinho fofoqueiro no fio da luz, o entretenimento da família vinha em duas formas: o caldo da caridade da tia Conceição e as histórias mentirosas, porém deliciosas, do vô Edmundo. Nas tardes, a gente se amontoava no terreiro, cada um com seu prato de alumínio amassado, esperando a fumacinha sagrada sair da panela. Era mingau de farinha de mandioca, grosso e perfumado, com ovo de galinha caipira, coentro colhido no quintal, muita pimenta do reino e um poder milagroso: curava toda mazela, ressaca, frieira, dor de cotovelo e até casamento desfeito. — Isso aqui levanta até defunto — dizia a tia, mexendo o caldo como quem invocava uma bênção. — Se Jesus tivesse provado, a multiplicação dos pães era de mingau! Enquanto isso, vô Edmundo começava o espetáculo. Era um contador de causos profis...
Não sei pq, mas hoje acordei diferente. Sem batom vermelho de Sempre, Sem filtro sem maquiagem... Apenas munida de uma nova vontade, Vestida desse manto que brilha Chamado LIBERDADE !!!
Foi depois de muito mato, muita manga chupada no pé, palmito de tucum e muita carta nunca enviada que a menina do interior tropeçou num livro de gênero pomposo: Poesia. Abriu por acaso, esperando achar um horóscopo ou receita de doce de buriti, mas encontrou Mário Faustino, o tal Príncipe das Palavras. Achou que fosse nome de santo ou locutor de rádio AM, mas era poeta e dos bons. Achou também que fosse exagero de quem escreveu o prefácio, mas bastou um poema, leu e não entendeu nada. Releu e sentiu tudo, e atestou que aquele cabra sabia encantar até pedra com sílabas. Os versos eram lapidados com tanto esmero que pareciam bordados de voz. Com mãos de ourives e alma de beija-flor, ágil na arte de prender pela delicadeza. Ela não discerniu o pensamento, mas sabia que estava emocionada e com inveja, que nem sei se é permitido chamar de " inveja boa". Desde então, passou a escrever em todo canto: no caderno da escola, no verso da conta de luz, paredes e na palma da mão. Qu...
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